Alkantara Festival ’10

Breve definição do que é então o Alkantara Festival :

Alkantara surge na continuidade da plataforma de dança, Danças na Cidade, fundada em 1993.
Danças na Cidade desenvolveu uma intensa actividade de promoção da dança contemporânea nacional e internacional, incentivando cruzamentos e diálogo entre criadores. As várias edições do festival homónimo (1993-2004) e projectos de colaboração como o Dançar o Que é Nosso (iniciado em 1998), foram os principais marcos deste trabalho.
05 MAI 2010 | Arranque do alkantara festival 2010
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Após dois anos de preparação o alkantara festival abre, finalmente, as portas ao público a 21 de Maio, no São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, com o espectáculo “Radio Muezzin” de Stefan Kaegi (Rimini Protokoll), e no Teatro Nacional São João, no Porto, com “vamos sentir falta de tudo aquilo de que não precisamos” de Vera Mantero.

A partir de 21 de Maio e até 9 de Junho, são apresentados mais de 30 espectáculos, um terço dos quais são estreias mundiais, das áreas da dança, teatro e tudo o que fica entre disciplinas. Artistas dos quatro cantos do mundo rumam a Portugal para contar as suas histórias locais, alfinetes no mapa-mundo, testemunhos preciosos do estado das coisas no planeta. Colocando, no entanto, a tónica na interrogação em vez de na exclamação, e com o intuito de entrar em diálogo com o próprio espectador.

No momento que já me sentia preparada para escrever um breve artigo sobre esta perfomance, li esta crítica que foi publicada na  OBSCENA #20, e achei super interessante e detalhada.

” Há centenas de maneiras de esvaziar uma cabeça. Devemos ser felizes se existir algo lá dentro. Mas o quê? Quem precisa disso?

Na sua nova performance, Vera Mantero brinca ao teatro com cabeças. Nadia Lauro emoldurou o palco com um par de espessas cortinas de veludo vermelho, que remetem para o interior de um orgão. Um homem (Christophe Yves)entra, enérgico, do lado direito: de olhos muito abertos, traz uma cabeça na sua mão. Uma cabeça feita de plástico cor de carne, careca, com um rosto de boneca estupidamente simpático. A cabeça está virada para o chão. O pescoço é longo, o homem introduz a sua mão no interior da cabeça, procura, encontra, escava, e, triunfalmente, gera um pequeno carro vermelho. Deixa-a cair e, com o dedo do pé, tenta escavar mais. Mas sem sucesso. Encolhe os ombros e sai pelo mesmo sítio de onde entrara. O homem que se segue (Miguel Pereira) avança, trazendo uma cabeça idêntica à primeira. Abana-a, retira do bolso um colar que manipula como um pêndulo frente aos olhos, deixa-o cair, olha-o com desprezo, e sai. A seguir uma mulher (Marcela Levi) encontra várias pequenas cruzes (cristãs) de madeira e alinha-as no chão. Cada uma das muitas aparições dos quatro performers, incluindo Vera Mantero, em t-shirts e calças pretas, é diferente: os passos, as expressões, a velocidade, o som, o seu ritmo, a descoberta, a forma de deixar, ou atirar, ou rejeitar, ou libertar-se do que se achou.

Alguns dos materiais surgem mais do que uma vez, outros são únicos. Rebuçados embrulhados em vermelho e prata, carros, cruzes, um tapete feito de páginas de revistas cheias de fotografias de pessoas (cabeças), uma boneca flácida, uma pistola (que não é deixada, mas levada de volta), pó de talco, fumo, lã cinzenta a imitar um cérebro e palha. E por fim, muitas moedas e uma cabeça cheia de notas caem no chão. Lixo. Alguns crânios vazios estão também por ali. Sem pensamentos, só coisas para encher as cavidades. Será esta uma simples crítica ao consumo, ao qual obedientemente vergamos a nossa cabeça?

Felizmente a criação de Vera Mantero é mais inteligente e complexa que isso. A aparente super-teatralização da entrada, acção, saída, a euforia da surpresa, tudo isto parece quase ingénuo ou pueril. Ela alimenta a sede do espectador – e consumidor – pelo novo, novo, mais, mais, mas também mostra amor pela arte performativa. Amor que, depois de um ano de questionamento, parece estar vívido e feliz em Vera Mantero. De referir que a disposição do palco nos lembra velhos modelos científicos que explicam as funções do cérebro como teatro. Mantero dá continuidade à sua arte de trazer o interior para o exterior – e de o traduzir em corpos estranhamente ágeis – de uma forma divertida e banal: esvaziando cabeças humanas. Ao mesmo tempo, de forma subtil, ela torna audíveis as várias formas de manipular os materiais, que são parcialmente amplificados por altifalantes. Os sons são, eles próprios, distorcidos ou não correspondem ao material vista. Também a mímica e, mais tarde, reacções mais intensas dos performers sugerem um movimento interior: alegria, curiosidade, nojo, desilusão, medo, embaraço, cãibras. Mas sem nunca ser teatral – parece mais ter falta do controle de um super-ego.

Então, mais tarde, começam a sair sons da boca dos performers. Queixas. Assobios. Sorrisos. Gargalhadas. Uma mulher soluça e chora amargamente depois de cobrir o rosto com um creme dourado saído de um dos crânios. Como se ela se tivesse entregue a um poder atractivo e se tivesse perdido. Outra canta uma canção para si mesma. Um homem lê palavras inscritas em moedas: Liberty, In God We Trust. Liberté, égalité, fraternité. Os nossos valores. Valores em números, nomes dos estados, anos. 1955, 1995. Num momento, o passado e a memória mostram os seus contrastes, enquanto coisas impessoais deitadas ao chão. Uma carta, ou poema, é lido, dando a conhecer formas de cair, pessoas que estrangulam o espaço com uma face impenetrável. A história de tudo isto que “vamos sentir falta” começou com os performers sozinhos, depois reparando uns nos outros, manipulando os crânios de diversas formas – e por vezes, sendo manipulados por eles. Achar um fim foi problemático. Recorrer a instruções manuais para um gadget – como uma cabeça – gera um efeito profundo. Antes disso, houve um momento de optimismo: duas pessoas falam uma com a outra, questionando acerca de uma bandeira com um dragão. Um conto de fadas animal. Uma questão. ”

 

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